Esta é uma iniciativa do Centro de Pesquisa do Pantanal por meio do Laboratório de Ecologia e Conservação de Populações. Ela nasceu da percepção de que há um descompasso entre a produção de conhecimento na Academia e a qualidade da tomada de decisão no que diz respeito ao manejo das pescarias.
A nossa meta principal é colaborar para que a tomada de decisões sobre o manejo de pescarias tenha como base a melhor informação científica disponível. Nós acreditamos que a existência de pescarias saudáveis é um indicador sintético que carrega informação sobre a saúde dos sistemas ambientais. Uma pescaria produtiva só é possível de ser mantida em um ecossistema que mantém características estruturais que permitam seu funcionamento próximo do ótimo. Isso envolve manter um nível aceitável de conservação das bacias hidrográficas em que se inserem, redução de poluição de fontes mais dispersas oriundas das atividades agropecuária e industrial. Em adição, o nível de produtividades das pescarias, e de satisfação dos pescadores, depende do tamanho do estoque disponível para a pesca. Essa é uma variável difícil de estimar, que demanda grande esforço de pesquisa, o que implica em contratar muitas pessoas e gastar muito dinheiro para se obter esse dado. Normalmente, e não somente no Brasil, nem uma coisa nem a outra é disponível. Mas sem essa informação não podemos fazer previsão sobre o nível de pescaria que deve ser mantido em ordem para não comprometer nem a saúde do estoque nem a produtividade das pescarias no futuro.
Para suprir essa carência fundamental é preciso que se construa parcerias entre Cientistas (Ex: Biólogos da Conservação, Cientistas Pesqueiros, Ecólogos de Populações) Gestores e Pescadores no sentido de produzir a melhor informação disponível sobre a variação anual do tamanho do estoque. Nessa parceria, os usuários são uma peça fundamental porque podem ajudar a colher dados pontuais sobre as espécies pescadas, que reunidos e submetidos a análises estatísticas adequadas realizadas pelos cientistas podem gerar as informações quem os gestores necessitam para discutir com a sociedade como melhor gerir as pescarias.
O projeto é coordenado pelo Prof. Jerry Penha, do Laboratório de Ecologia e Manejo de Recursos Pesqueiros (LEMARPE), Instituto de Biociências, UFMT, campus de Cuiabá. O nosso Laboratório é coordenado juntamente com a Profa. Lúcia Mateus, do mesmo Instituto de Biociências, e conta com uma equipe de estudantes de graduação (a maioria da área de Ciências Biológicas), mestrado e doutorado (a maioria do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade). Informações adicionais sobre o nosso grupo de pesquisas pode ser encontrado aqui: https://lemarpe.wixsite.com/lemarpe
A iniciativa “garantindo a pescaria”, se iniciou com a aprovação de um pequeno projeto junto ao Centro de Pesquisas do Pantanal/MCTIC, em 2015, que permitiu a realização das primeiras entrevistas, realizadas na Bacia do Rio Cuiabá. Um aporte financeiro adicional da Agência Nacional de Águas/Fundação Eliseu Alves para realizar estudos de Avaliação dos Efeitos da Implantação de Empreendimentos Hidrelétricos na Região Hidrográfica do Paraguai e para Suporte à Elaboração do Plano de Recursos Hídricos da Região Hidrográfica do Paraguai – PRH- Paraguai, entre 2016 e 2019, nos permitiu expandir consideravelmente as entrevistas, alcançando a maior parte dos grandes rios do Pantanal. Além de permitir gerar os mapas de adequabilidade de habitat para desova, que apresentamos aqui no site, esse aporte financeiro nos possibilitou aprofundar o nosso conhecimento sobre a biodiversidade e a biologia reprodutiva dos peixes comerciais do Pantanal, em uma parceria com a EMBRAPA/Pantanal, UEMS, UEM, UFMS, UnB e a própria ANA.
Através da Profa Lúcia Mateus, a nossa equipe também atua no Conselho Estadual de Pesca do Mato Grosso, dando suporte científico à tomada de decisões baseada em dados.
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| Figura 1. Probabilidade de uso como área de desova para Pseudoplatystoma corruscans e Pseudoplatystoma reticulatum na RH Paraguai. Cores mais quentes representam maior probabilidade de desova, enquanto que áreas com menor probabilidade são indicadas por cores mais frias. Os pontos pretos indicam locais, informados pelos entrevistados, como sendo áreas de desova para a espécie. Mapa construído a partir de entrevistas com pescadores. Copyright: Dr. Yzel Rondon Suarez/UEMS-Dourados. Fonte financeira: MCTIC/CPP e ANA/Fundação Eliseu Alves. |
Apresentação da Professora Lúcia Mateus na Reunião do Conselho de Pesca de Mato Grosso, realizada no dia 14 de maio de 2021, foi a base para a tomada de decisão sobre o período de piracema de 2021. Ver notícia aqui: http://www.mt.gov.br/-/16706151-conselho-de-pesca-se-reune-em-transmissao-ao-vivo-e-aprova-calendario-de-2021 e vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UI6wRax_nWk.
Participação dos Profs Jerry Penha e Lúcia Mateus na live que discute “a seca no Rio Paraguai e Pantanal – impactos nos peixes e na pesca, assista ao vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=CJU5fDlgLUg&t=347s
Estudo recém-publicado na renomada revista científica Journal of Applied Ecology pela Dra Joisiane Mendes Araújo, com a participação do Prof. Jerry Penha, seu orientador de dissertação de mestrado e tese de doutorado, mostrou as implicações da sobrepesca de peixes frugívoros na perda de funções ecológicas do Pantanal Para desenvolver o estudo, a Dra Joisiane passou meses da sessão de cheia na RPPN SESC Pantanal entre os anos de 2014 e 2017. Durante esse período, realizou pescarias, coletou sementes regurgitadas por peixes e realizou experimentos de germinação com essas sementes, com o objetivo de entender o importante papel que peixes frugívoros realizam em áreas alagáveis. O estudo levou a identificação de 16 espécies de peixes frugívoros na região, que juntos consumiram 80 morfoespécies de sementes. Para acessar o estudo completo, acesse aqui: https://doi.org/10.1111/1365-2664.13891.
Em artigo publicado no último dia 20 de março no periódico científico Fisheries Management and Ecology (https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/fme.12479), nós utilizamos dados de monitoramento de pescarias em pesqueiros com tablados ao longo do Rio Cuiabá para reconstruir a captura e estimar quanto a pesca recreativa introduz de recurso financeiro na economia da região. Primeiro, nós estimamos a captura por unidade de esforço de pesca, que é a quantidade de peixes capturados (em número e kg) por pescador por pescaria, o gasto médio de pescador por pescaria e o número médio de pescadores visitando os pesqueiros ao longo do ano. A partir desses dados nós estimamos a quantidade de peixes retirados do rio e o valor monetário que a pesca recreativa introduz na economia da região do Rio Cuiabá. A nossa estimativa é de que a pesca recreativa baseada em tablados introduz anualmente cerca de U$ 2 milhões na economia do baixo Rio Cuiabá. O estudo é baseado na dissertação de mestrado do primeiro autor (Brayan Massaroli) desenvolvida no PPG em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, UFMT, campus Cuiabá.